SOCIALIZAÇÃO DO QUE FOI CONSTRUÍDO NO 3º ENCONTRO DO ESCAMBO DE VIVÊNCIAS

Discussão do livro de Aílton Krenak – “Idéias para se adiar o fim do mundo” (2019), e debate sobre o filme “Uma Onda no Ar” (2002); produzido por Helvécio Ratton.

No início da conversa, foi exposto o primeiro argumento do texto cujo autor enfatiza que a humanidade e civilização, assim como outras categorias, foram construídas a partir de uma visão homogênea do branco colonizador europeu. Desse modo, todas as instituições que conhecemos – escola, igreja, família, entre outras – foram desenvolvidas e legitimadas para estruturar uma única forma de se enxergar e existir no mundo mediada pelo poder hegemônico capitalista. 

É através da socialização que os conceitos de humanidade e civilização são descolados de maneira tão explícita do organismo planetário, objetivando através de seus mecanismos instituídos acabar com “(…) a organicidade dessa gente (sub-humanidade)”, “filhotes da terra” que detém outras formas de vida. O capitalismo e suas corporações almejam portanto, a partir da “abstração civilizatória”, a supressão da diversidade, negando a pluralidade das formas de vida, culturas e hábitos.

A leitura que o autor faz do fim do mundo está alicerçada a sua cosmovisão vinda do povo originário Krenak – também presente entre outros povos originários – que já presenciaram através de sua resistência entre tantos séculos, diversos “fins de mundo”.  Vivemos numa cultura cristã ocidental que sempre cria fins de mundos (arrebatamentos) para tudo, todo ano tem um fim do mundo diferente por conta de qualquer coisa (um desastre natural, um meteoro, um evento que nunca tinha acontecido antes, etc). Para os povos indígenas originários, “O Fim do Mundo” começou com a colonização de sua existência mundana.

“O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder.”

O Estado opera para desfazer organizações dissidentes à sua lógica de forma que as sociedades indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, favelas e assentamentos são alvos frequentes do descaso civilizatório. A partir da afirmação, podemos pensar o por quê da organização de uma Rádio Favela incomodar tanto o governo? Nesse sentido, o território e a natureza que fazem parte da construção da socialização e das subjetividades coletivas de determinados povos perdem seus significados e sentidos dando lugar a uma experiência projetada na mercadoria. 

Nesse momento, acompanhamos o colapso dos sistemas de saúde pelo mundo devido a pandemia do Coronavírus onde as equipes médicas são forçadas a escolher tratar jovens em detrimento dos mais velhos pela justificativa da produção capitalista. A suposta neutralidade científica se coloca enquanto reflexo da mercadoria na medida em que é planejada para cumprir os anseios do mundo-mercado que reduz a nossa experiência social ao consumo, servindo enquanto dispositivo de monitoramento e controle para a “correção” estatal hegemônica. 

Para o autor, devemos encarar o fim do mundo para “[…] pensar a queda aproveitando toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos”, de forma a enriquecer as nossas subjetividades no sentido de negar o mundo-mercado e suas normativas. Diante da iminência da Terra não suportar o modo de produção capitalista – o agronegócio, a monocultura, a mineração exploratória, a produção em massa e a mercantilização de toda forma de vida – todos os seres vivos do planeta estão ameaçados de extinção. Pensar na possibilidade de um novo mundo no sentido da reordenação de nossas relações, de novos entendimentos de como podemos coexistir junto ao organismo planetário e com o que admitimos ser a natureza, seria o primeiro passo para a construção de uma nova sociabilidade.

Também surgiu nas debate:

> o que é o fim do mundo? ele já está em curso?
> vivemos numa cultura cristã de querer criar fins de mundos ;(arrebatamentos) pra tudo, todo ano tem um fim do mundo diferente por conta de qualquer coisa (um desastre natural, um meteoro, um evento que nunca tinha acontecido antes, etc.);
> relação disso tudo com o filme Era do Gelo 4;
> decolonização / cuidado com a natureza, espiritualidade e com os mais velhos;
> Ailton krenak gravou uma live que toda hora soava um apito no fundo, e ele informou que é da vale (as terras krenak ficam perto de uma zona de extração da Vale), pois a empresa só aumentou sua produção nesse período de coronavírus;
> necropolítica: por que os mais velhos podem morrer? (usar o termo mais velho ao invés de “idoso”, no sentido de valorizar toda vivência e conhecimento que aquela pessoa traz consigo, sua ancestralidade);
> como podemos evitar o fim do mundo? / o que estamos fazendo?

> as coisas que Ailton fala são muito simples, mas ao mesmo tempo muito complexas, refletindo sobre uma tecnologia social que os povos indígenas têm de viver em comunhão ;
> últimas pandemias (h1n1, gripe aviária, coronavirus) terem haver com consumo de carne  / precisamos repensar nossa alimentação
;

Encaminhamentos:

– tiramos de continuar o debate sobre o filme “Uma Onda no Ar”, e o Ravi ficou de chamar o Ice Band (rapper e que participou da gestão da Rádio Favela) para um encontro próximo;
– decidimos ver o filme A Era do Gelo 4 e ler o texto
“O vírus SARS-COV-2 não é um mensageiro” para o próximo encontro.


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